quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Autismo-O retraimento excessivo sobre si próprio

Sendo ou não adepto das teorias da conspiração, estamos de certa forma inscritos numa sociedade que promove um autismo altamente funcional. Não só porque desenvolve com cada vez maior frequência ferramentas que nos alienam e distanciam de uma vida comunitária, do outro, quer a nível local como global, preferindo meios telecomunicantes, mas também porque rompe com tudo o que nos liga à realidade, construindo outras mais confortáveis, para todos os que se ausentam voluntária ou involuntáriamente dela.
O autismo comporta dois traços essenciais: o retraimento sobre si próprio, traduzindo-se numa indiferença quase total em relação ao perimundo exterior, e a necessidade que nada seja mudado, reflectida em actividades ritualizadas, estereotipadas, repetidas. O ser humano autista evolui num universo privativo, demarcado com referências próprias e de difícil acesso.
Este défice de interacção social provoca a diminuição de comportamentos não verbais múltiplos, tais como o contacto visual, redução da gama de expressões faciais, postura corporal e de gestos reguladores da interacção social.
É geradora também de dificuldades em desenvolver relações de companheirismo apropriadas para o nível de comportamento, falta de procura espontânea em dividir satisfações, interesses ou realizações de outras pessoas, em suma, ausência de reciprocidade social ou emocional.
Ao nível da comunicação, verifica-se um atraso ou ausência total de desenvolvimento da linguagem oral, sem ocorrência de tentativas de compreensão através de modos alternativos de comunicação, tais como gestos ou mímicas; em indivíduos com fala normal, verifica-se uma destacada diminuição da habilidade em iniciar ou manter uma conversa com outras pessoas, e ausência de acções variadas, espontâneas e imaginárias ou acções de imitação social apropriadas para o nível de desenvolvimento.
Como não questionar os modelos de desenvolvimento social que fomentam a interacção à distância, o abandono de formas de estar mais consolidadas de grupo, a falência da coesão familiar? Sem querer ser alarmista ou um barbudo residente no restelo, o objectivo deste post não é apenas desfilar um sem núnero de sintomas que são associados a uma patologia grave e potencialmente incapacitante, mas reflectir de uma forma mais abrangente sobre formas de autismo adquiridas social e civilizacionalmente, e que aparentemente são apresentadas sob um manto de desejabilidade intensa. Estas novas "pulsões" colectivas e coercivas têm como efeito secundário a criação de novas formas de isolamento, seja ele social, tecnológico ou ambos, pois nos dias que correm uma conduz inevitávelmente a outra. Chamamos a certas partes do Ocidente o "velho mundo", condenamos ao primitivismo outras formas de estar em sociedade ou família que não saídas directamente do novo velho mundo. Criamos novas formas de exclusão todos os dias, isolamos e dividimos para melhor podermos doutrinar. O que me parece é que o isolamento já está instalado de qualquer maneira, seja através de uma evidência como o autismo individual, ou de uma subtileza, como o autismo adquirido socialmente.


Paulo Dias

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Depressão: A Enfermidade Globalizada

O paciente 21 está com um humor deprimido, sente-se triste, desanimado, e esse sentimento é profundo, enraizado, como uma cicatriz invisível mas dolorosa. Já não retira o mesmo prazer das coisas que faz e perdeu o interesse nas coisas mais simples e elementares da vida, como por exemplo viver.
Tem problemas em adormecer, e por vezes quando finalmente consegue adormecer acorda pouco tempo depois. O paciente 21 perdeu a esperança em ficar melhor, em conquistar terreno, em propor metas para si próprio, em lutar contra a adversidade.
Não se inscreve no futuro, para ele o tempo parou, o seu tempo parou, a sua mente também parece estar parada. Todo o tempo que vive está dobrado, encarquilhado, bisonho, não sorri. O paciente 21 perdeu o apetite pela vida, perdeu literalmente o apetite, perdeu peso e nada tem o mesmo peso que tinha. Sobrevive apenas, mantém-se vivo, mas sente-se culpado e carrega o peso de todas as escolhas que fez. O paciente 21 desvaloriza-se a ele próprio, não precisa de ninguém para o fazer, fá-lo automaticamente. Deseja que este sofrimento acabe, pensa em sair desta situação, pensa em desistir totalmente, pensa em morrer. Mas afoga-se na indecisão, arrasta-se lentamente pelo espaço físico, através do seu espaço físico, faltam-lhe as forças para ter força, está cansado e sem energia. O paciente 21 é a imagem mais comum de uma enfermidade que se alastra século adentro, fruto de uma sociedade também ela sem apetite, inscrita num futuro longinquo, tecnológica, artificial, que não deixa tempo nenhum para respirar e viver o momento, aqui e agora.

O post zero

Começo hoje uma nova forma de expressão através da blogosfera. Inicio este espaço de reflexão, com o intuito de aprofundar os meus conhecimentos de Psicologia e ao mesmo tempo reflectir dialecticamente sobre vários temas que enriquecem o já de si vasto Universo desta disciplina. As àreas temáticas são variadas, indo desde a corrente humanista, passando pelo misticismo oriental, religião, filosofia, tudo o que diga respeito ao processo de personalização do homem e o seu papel na criação das suas mitologias.